3.10.06


Os quatro
(por Ivana M.)


Elas eram lindas! Dançavam juntas. Eles eram feios, dançavam com elas.
Elas, brancas, uma nova, uma mais velha: uma a cara da outra, mãe e filha.
Eles, da mesma idade, um negro, um nordestino. Amigos. Pareciam os quatro uma aberração natural das que não se imagina encontrar. Não eram da mesma classe social, não eram parecidos, não tinham a mesma cultura. Elas sim eram cultas, estudadas, e dançavam... dançavam. E olhavam uma à outra. E quase se beijavam. E se animavam, duas, tres vezes a cada música que ouviam. Sorriam, deixavam-se abraçar.

Eles as abraçavam. Eles não sentiam o enorme cadafalso a que nos condenavam. Que amigos estranhos! E quanta intimidade! E quanta alegria, Deus! Por que os sussurros ao pé da orelha? Eles tinham mesmo que nos matar de tanta angústia? É fato, não eram amantes os quatro. Não podiam ser. Era a pura amizade aberrada.

Angústia, nojo, nojo sentíamos todos os que tinham que ver aquele circo! Como se atreviam a esnobar todo aquele prazer? Acaso não pensavam nas pessoas normais sentadas nas mesas?

Eles sentaram, elas sentaram.
Todos os observávamos esperando que em algum momento topassem com uma porta, caíssem de bêbados, brigassem ou se fossem.
Os quatro descansaram por quinze minutos. Outra vez a raiva tomava conta de nós: eles riam, elas riam, eles gritavam. Nesse minuto já haviam percebido a força de nosso ódio.

Aquele negro, aquele nordestino, aquelas duas, não havia limite! Passaram toda a noite num duelo inimaginável, provando-nos o quão odiosos podem ser os alegres, e que, apesar de toda a insistência, nós, normais, sabemos direitinho ignorar esse tipo de gente.