3.9.06

O só
(por Ivana Millán)

Que mãos inchadas tem aquele menino
sentado à porta do barbeiro
Que mãos gordinhas e sujas
as de seu corpo magro e molengo
Aquele menino de rosto de barro
e unhas de graxa
que cospe, que esconde, fala sozinho
e imagina seus cinco minutos

Que feios os dedos daquele moreninho
jogando à porta do barbeiro
sem ver que tem gente na rua
olhando pra ele sem unha e sujinho
Aquele garoto de muitas palavras
sozinho, sozinho

Todos aqueles dois olhos fitos no chão
olhando os bichos do chão e falando
sozinho

Que feio aquele menino de roupa vermelha
que feios seus dedos
feinho, tadinho
tão pobrinho, tão pretinho
com umas mãos inchadas tão feias
ri sozinho, sozinho. Nem olha pra mim.

5 comentários:

Nosso vôo é nossa arte. disse...
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Arquimimo Novaes disse...

Ivana,

Como você já sabe, adorei o seu texto. Tenho sentido um amadurecimento, texto após texto.

Beijo. =O]~

Caroline Gonçalves disse...

Muito bonito mesmo o texto, Ivana! Parabéns!
Quando terminei de ler, confesso que, me colocando no lugar do eu-lírico, fiquei me sentindo tão só quanto o menino de "mãos gordinhas e sujas".
Beijos, paella!

Ivana disse...

Carol, obrigada. Não acha que "o só" se extende ao narrador?
Bj.

Cris disse...

ivana, seus textos são muito bonitos. já tinha me esquecido de como chegar até aqui, mas hoje vi que tem link no blog do arqui. agora não perco mais. bjs