
A draga
(por Ivana M.)
Todos se detiveram ao ver aquela mulher. Uma repentina poluição visual.
Ela não andava, se arrastava. Seus pés estavam no chão, pesados. Seu corpo, todo, completo, tinha como mediadores daquele milagre gravitacional seus pés. Não eram pés anômalos, eram pés de obesos preguiçosos. Os dedos, que já não se mexiam, eram apoios paralíticos para algo grande que a sustentava, como uma draga invisível que a fazia locomover-se. A sola pisava tremenda, uma espécie de esteira de aço onde se poderia facilmente escutar o ranger da galhofaria, o barulho das peças velhas e enferrujadas daquela máquina fatigante e bizarra que inundava a sala à medida que a cruzava, como um buque de carga, rangia.
Não tinha mais que vinte anos aquela velhaca incabível, aquele entulho delgado, aquela severa sovela novata, que espatifava os nossos olhares com sua juventude falhada e miúda e nauseante.
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